Reinaldo Pamponet p/ Fanzine Tangolomango, 29/05/2006
De que adianta todo esse movimento de inclusão digital e de globalizaçao se a população de Irará não puder conhecer a obra do Mestre Almiro Oliveira?
Para que que serve todo esse movimento batizado de “world music” se o meu “world” não está lá?
O que significa a opinião de uma gravadora multinacional que a seguinte música de raiz não vende. Ah! o sabonete já não é mais o mesmo, diga-se de passagem.
De que adianta toda essa potencialização de home studios e dos próprios artistas produzirem os seus próprios trabalhos com independência e liberdade? Que bom, esse gargalo já não é mais o mesmo. Fazer um disco hoje não é mais um bicho de sete cabeças, isso para quem leva a sua arte a sério.
A Eletrocooperativa surgiu com muito poucas respostas e com muitas perguntas e questionamentos. Tínhamos e temos a sensação de que o desafio estava e está em possibilitar e pregar o exercício do fazer em busca de possibilidades concretas, recheada de um compromisso de realizar mais e discursar menos.
Na Eletrocooperativa temos o objetivo claro de promover a inclusão musical – buscar a música e potencializá-la, abrindo espaço para que ela se manifeste e siga o seu caminho. Enfrentamos hoje uma crise, crise esta na indústria que muitos ainda insistem em chamar de indústria do disco…ufa! ainda temos uma grande oportunidade de buscar modelos que privilegiem a música e não o seu formato industrial.
Como é bom se ver e se identificar…e como é maléfico ser forçado a pertencer e a consumir o que o mercado define como regra. Abaixo a censura mercadológica para a arte!
A nossa força está em Irará, em Arcoverde, em Cachoeira e em diversas outras cidades do nosso país que produzem música e, acima de tudo, arte, cultura e história.
Quem gosta de música eletrônica que escute música eletrônica, quem gosta de música clássica também, se outros gostam do que se intitula de música brega, música sertaneja, entre outras, que curtam as suas respectivas preferências. O que não vale é definir que a música do Brasil agora é o pagode, a sertaneja, o hip-hop, o rock’roll, o axé. Opa… cada um na sua, meu irmão. Cada cidadão tem o direito de ouvir o que quiser, o que lhe dá prazer, alegria e, acima de tudo, o que faz sentido para si e/ou para a sua história.
Vamos dar o próximo passo…vamos construir o Futuro Primitivo. Vamos potencializar a música regional, a música local, a música municipal, a música “bairral”, a música comunitária. Ela fala mais no coração de cada um. Nem todo mundo quer ser cidadão do mundo. Conheço muito mais pessoas que não fazem questão de ir além de Macajuba ou de Feira de Santana. O que há de errado nisso? Será que o erro não está em querermos direcionar as pessoas para irem para onde não se encontram?
Pois é. É chegada a hora de pararmos de vez com defesas de modelos falidos ou interesses de determinados grupos que não contribuem em nada para preservar nem promover os movimentos culturais brasileiros.
Sejamos acima de tudo generosos intelectualmente e vamos nos preparar para o salto. O que fazer com a música de raiz? A proposta da Eletrocooperativa é potencializá-la para que crie o seu próprio público e, por que não dizer, o seu próprio mercado. É pretenciosa essa proposta? O artista precisa do público e o que estamos fazendo é simplesmente facilitar o acesso do público aos conteúdos produzidos pelos artistas estabelecendo, assim, o retorno da identificação entre artistas e suas respectivas artes e o seu público.
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